Ela é aquela que me aparece do outro lado, no espelho.
Durante a maior parte da minha vida nunca tivemos problemas, sempre gostei dela. Quando nos encontrávamos, ela geralmente estava alegre, bonita, comum. De um jeito que não chamava a atenção nem para receber elogios e nem para suscitar os temerosos apelidos da infância.
A maior parte do tempo a gente não se via, mas era fácil perceber que as pessoas se agradavam dela, pois lhe endereçavam sorrisos, palavras de aprovação e simpatia.
E com o tempo ela foi crescendo, tornando-se cada vez mais autoconfiante e atraente, mais pela minha personalidade forte e positiva, do que por suas qualidades físicas, verdade seja dita.
Mas o fato é que fazíamos uma dupla perfeita, ou melhor, uma simbiose. Eu nela, ela em mim.
Juntas, fomos uma criança feliz, uma adolescente alegre e uma adulta corajosa e decidida. Fomos uma noiva com ares de princesa, ainda que ela não tivesse olhos azuis e cabelos loiros como as personagens dos contos-de-fada.
Nós sempre nos demos muito bem, até que, um dia, ela começou a aparecer rechonchuda nas fotografias...
Era incrível, em qualquer pose ela estava roliça, sem jeito e distante de mim. Pois eu continuava a mesma, sempre alegre, bonita e comum. Mas ela... ela estava diferente, “forte”, como todos faziam questão de declarar.
E foi aí que comecei uma busca pela recuperação de nossa antiga parceria. Caminhávamos, passávamos vontade de comer e perdíamos horas a fio lendo revistas sobre dietas e exercícios. Mas tudo parecia ser em vão, ela nunca mais voltaria a ser como antes.
Foi preciso muita paciência, persistência e vontade de aprender para nos entendermos novamente.
E finalmente, numa combinação de mente sã e corpo são, alcançamos nosso equilíbrio e hoje posso disse que fico feliz ao vê-la.
Por vezes, bem às escondidas, dou-lhe até mesmo uma piscadela. E ela, faceira e agradecida pelo elogio, cora e me retribui com seu sincero e largo sorriso.
