O título já sugere, e eu confirmo: não vou falar de coisas boas. Às pessoas mais sensíveis e com saudades do Brasil eu aconselho aguardar algumas semanas (ou seriam meses?) para que tudo esteja mais encaminhado e o futuro não aparente ser tão negro. Então, é nesse tom de desabafo que eu sigo adiante.
Antes, porém, uma pausa para contar nossa despedida da Finlândia. A empresa aérea nos permitia apenas 20kg de bagagem mais 8kg de bagagem de mão. Quantidade suficiente para uma viagem de férias dentro do seu continente, mas ridiculamente irrisória para uma viagem de volta para casa depois de dois anos morando em outro país que fica do outro lado do Atlântico. Para compensar, tivemos que armar um esquema no aeroporto: uma amiga foi nos encontrar e deixamos com ela nossas bagagens de mão. Fomos então fazer o check-in e dissemos que nossa única bagagem de mão eram as pastas dos laptops, devidamente entupidas de documentos, cds etc., e que por si só já pesavam perto de 8kg cada. Feito o check-in, pegamos as malas de mão que pesavam uns 10kg cada. Assim fomos embora com 18kg cada um, rezando para que ninguém implicasse conosco nas inspeções de segurança. Essa parte foi cansativa, mas passamos sem problemas. Fica a dica para os colegas expatriados. (Observação: lembrem-se de não demonstrar dificuldade na hora de levantar o chumbo para passar no raio X. Se começar a suar com o esforço, reclame do ar-condicionado e aproveite a cara feia para dar aquele impulso final para colocar a mala na esteira.)
Chegamos no aeroporto do Rio de Janeiro. Depois de duas horas (!) esperando as malas aparecerem na esteira, nem tivemos coragem de dar uma voltinha no free-shop. Fomos direto para a saída enfrentar a Receita Federal. Obviamente, em dois anos coleciona-se muitas bugingangas, incluindo telefones celulares, barbeador elétrico, roteador sem-fio (wireless) para internet, laptop 1, laptop 2 (da faculdade) etc. A chance de implicarem conosco era imensa, e confesso que estava nervoso. Nesse ponto até que foi bom termos dos últimos do avião a pegar as malas, porque o fiscal já estava de saco cheio e mandando todo mundo passar direto.
Saindo da alfândega, encontrei pai e mãe me esperando. Essa é a parte boa da história, a família faz uma falta imensa, quem está longe de casa sabe disso. No caminho para casa minha mãe já foi contando as novidades: quem teve o carro roubado (dois primos), quem teve a casa assaltada (um dos primos de quem já tinham roubado o carro antes), os tiroteios perto da casa deles, o olheiro de traficante que invadiu a casa que era do meu avô, enfim, essas coisas que já se tornaram banais no Rio de Janeiro, a ponto de minha mãe contar isso como parte de nossa conversa de boas vindas.
O Sol parecia estar com saudades, e mandou toda sua fúria para nos “agradar”. Na primeira semana cozinhamos num calor de 40 graus. Neste momento em que escrevo está muito mais agradável, é possível ficar na rede da varanda com roupas leves e sentindo uma brisa gostosa. No calorão mais forte até a própria rede me esquenta, não dá para ficar.
Mas nada disso é grande problema, aos poucos vamos nos adaptando e aprendendo a levar com a barriga. Também aos poucos vamos lembrando que é preciso muito cuidado ao comprar produtos no mercado, para não levar para casa um papel higiênico transparente, e que a única proximidade de um “suco de caju” concentrado com a tal fruta é o “sabor artificial idêntico ao de caju”.
Falando nisso, estamos aproveitando para comer muitas frutas, que são boas e baratas. Mas sinto falta de algumas coisas que comia na Finlândia. Sinto falta do suco de laranja que tomava religiosamente no café da manhã. Dos iogurtes, Valio ou Ingman, que não são tão doces e ralos como os daqui. Sinto falta, pasmem, do ruisleipä, ou de qualquer outro pão saudável que não seja apenas um bate-entope. Não adianta me dizerem que essas coisas existem aqui: se existem, eu não posso comprar, porque meu rendimento caiu vertiginosamente ao voltar para o Brasil e não posso mais me permitir certos “luxos”.
O luxo de viver dignamente, por exemplo. De ser respeitado. De me sentir tratado como gente. De não precisar pagar para trabalhar. Claro, porque aqui eu preciso comprar até as folhas que uso no laboratório da faculdade. Tudo isso para receber uma maravilhosa ajuda de custo do governo, que não dá nem para o começo. Férias, aposentadoria, décimo-terceiro? Isso não existe. Plano de saúde? Só se eu pagar. Se eu ficar doente? O problema é meu. E ainda esperam de mim que eu retribua trabalhando para o desenvolvimento de um país que não quer se desenvolver.
Eu não digo que tenha saudades da Finlândia, especificamente. Eu gosto de separar os meus sentimentos. Tenho saudade de poder ter isso tudo que está no parágrafo acima. Na Finlândia eu tinha, mas sei que também posso ter em outros lugares. A esperança de que eu possa vir a ter aqui neste país verde e amarelo está cada vez menor. Sinceramente, ela não existe mais.
Também não adianta vir o César Maia me dizer que apesar de tudo isso o Rio de Janeiro é lindo. Não me importa, porque eu descobri que nunca morei em Niterói nem nunca estudei nem trabalhei no Rio de Janeiro. Toda pessoa que já visitou Niterói e gostou conhece os bairros de Icaraí, São Francisco e as áreas nobres da Região Oceânica. Eu não moro em nenhum desses. Quem gosta do Rio logo cita o Leblon, Ipanema, Copacabana, Barra da Tijuca, Urca, Recreio, Lagoa... Eu não trabalho e nem passo perto de nenhum desses locais. Eu moro em Santa Rosa e estudo/trabalho na Ilha do Fundão. Tirando a Baia de Guanabara, não há nada lindo em todo o caminho. Na verdade o caminho é horrível e perigoso. Não é à toa que a região onde fica a universidade é chamada carinhosamente de Faixa de Gaza carioca. Em todo esse tempo aqui ainda não tive como ir à praia, já que ir a uma praia decente implica em ao menos trinta minutos de carro. Ou seja, não tenho nem mesmo a compensação das belezas naturais.
Desculpem o longo desabafo, mas eu precisava disso. Não consigo falar isso com ninguém aqui, pois temo que vão entender tudo errado, como se eu não estivesse feliz em revê-los. O que ninguém entende é que eu me sinto tão humilhado profissionalmente aqui que nem mesmo a satisfação de estar com as pessoas que gosto é suficiente para me fazer sentir bem. Percebo que com isso estou até me distanciando, evitando falar para não falar demais e reclamar de tudo. Evitando contato para que não percebam que estou triste. Porque é triste que estou.