Sábado, Outubro 22, 2005

Mais notícias do paraíso…

A casa dos meus pais fica perto de uma das avenidas mais movimentadas de Niterói. Para ir até eu sigo por essa avenida e viro à direita na rua deles. A casa fica logo no primeiro quarteirão. Para sair de , basta continuar seguindo o quarteirão virando sempre à esquerda, saindo assim de volta na tal avenida movimentada. O quarteirão em si é residencial e bem tranqüilo, tendo apenas uma padaria ou outra e uma escola, onde fui alfabetizado e onde votarei amanhã no famigerado referendo. Esse caminho é praticamente obrigatório, porque nessa região os quarteirões são inteiramente tortos, e não há outras ruas paralelas a essas. Na foto lá embaixo dá para ter uma idéia. Sendo assim, fiz esse caminho muitas vezes e continuarei fazendo, assim como toda a minha família.

Pois bem. Hoje levei Patricia na casa de minha sogra, pois tem um aniversário de um ano na família e Patricia foi ficar de babá. Na saída eu passei na casa de minha mãe para uma visita.

E daí?

Daí que minha mãe não estava em casa, e ao sair fui alertado pelos vizinhos para não seguir o caminho normal, porque o trânsito estava interrompido. Motivo: havia um carro parado perto da esquina com a avenida principal, onde ao que tudo indica um motorista foi assaltado e talvez assassinado. Detalhe: isso aconteceu por volta de onze horas da manhã.

E aconteceu ali, ao lado da casa dos meus pais, no caminho que eu estava prestes a fazer e no caminho que eu mesmo teria feito alguns minutos antes se não tivesse me demorado a sair da casa de minha sogra, o que significa que poderia ser eu morto dentro daquele carro!

Isso é vida?

E daí que a temperatura aqui é agradável e não tem neve nem gelo na rua? Em troca tem bandido armado que nãovalor nenhum à sua vida. Que te mata em troca de um celular vagabundo.

Para ir embora voltei pela mesma rua em que entrei, pela contramão e com isso passei em frente à tal rua e vi o carro , com um monte de gente em volta, um carro da polícia e um policial olhando tudo passivamente.

Como se não bastasse isso aconteceu em frente ao colégio onde amanhã tenho que ir para votar no tal referendo. Como o assassinato aconteceu de dia, poderia também ter acontecido amanhã no mesmo horário, ou seja, eu também poderia ser vítima de bala perdida quando estivesse indo votar no maldito referendo. E se sobrevivesse ainda teria que pagar multa por não ter cumprido meudireito” de votar.

sei que quando sair deste lugar, se conseguir me manter vivo até , vou fazer como aquele personagem da novela Vale Tudo: vou ajeitar a mão esquerda sobre a parte interna do cotovelo direito, e, com o braço direito em 90 graus e punho cerrado (famosabanana”), viro para a janela do avião e falo: “Brasil, aqui ó!”


Atualização: Há várias versões sobre o incidente correndo de boca em boca. Dizem que na verdade um carro foi roubado em uma padaria que fica a uns 200m da tal esquina, e o dono conseguiu chamar a polícia que interceptou o carro logo em seguida. Ninguém explica como a polícia pode ter chegado tão rápido. Houve um tiroteio no meio da rua entre a polícia e os bandidos, que acabaram presos e quase linchados na rua. Outra versão fala sobre um casal que teria morrido também. Para mim não importa o que aconteceu de fato, qualquer coisa será demais para a minha cabeça.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

A (difícil) adaptação

O título sugere, e eu confirmo: não vou falar de coisas boas. Às pessoas mais sensíveis e com saudades do Brasil eu aconselho aguardar algumas semanas (ou seriam meses?) para que tudo esteja mais encaminhado e o futuro não aparente ser tão negro. Então, é nesse tom de desabafo que eu sigo adiante.

Antes, porém, uma pausa para contar nossa despedida da Finlândia. A empresa aérea nos permitia apenas 20kg de bagagem mais 8kg de bagagem de mão. Quantidade suficiente para uma viagem de férias dentro do seu continente, mas ridiculamente irrisória para uma viagem de volta para casa depois de dois anos morando em outro país que fica do outro lado do Atlântico. Para compensar, tivemos que armar um esquema no aeroporto: uma amiga foi nos encontrar e deixamos com ela nossas bagagens de mão. Fomos então fazer o check-in e dissemos que nossa única bagagem de mão eram as pastas dos laptops, devidamente entupidas de documentos, cds etc., e que por si pesavam perto de 8kg cada. Feito o check-in, pegamos as malas de mão que pesavam uns 10kg cada. Assim fomos embora com 18kg cada um, rezando para que ninguém implicasse conosco nas inspeções de segurança. Essa parte foi cansativa, mas passamos sem problemas. Fica a dica para os colegas expatriados. (Observação: lembrem-se de não demonstrar dificuldade na hora de levantar o chumbo para passar no raio X. Se começar a suar com o esforço, reclame do ar-condicionado e aproveite a cara feia para dar aquele impulso final para colocar a mala na esteira.)

Chegamos no aeroporto do Rio de Janeiro. Depois de duas horas (!) esperando as malas aparecerem na esteira, nem tivemos coragem de dar uma voltinha no free-shop. Fomos direto para a saída enfrentar a Receita Federal. Obviamente, em dois anos coleciona-se muitas bugingangas, incluindo telefones celulares, barbeador elétrico, roteador sem-fio (wireless) para internet, laptop 1, laptop 2 (da faculdade) etc. A chance de implicarem conosco era imensa, e confesso que estava nervoso. Nesse ponto até que foi bom termos dos últimos do avião a pegar as malas, porque o fiscal estava de saco cheio e mandando todo mundo passar direto.

Saindo da alfândega, encontrei pai e mãe me esperando. Essa é a parte boa da história, a família faz uma falta imensa, quem está longe de casa sabe disso. No caminho para casa minha mãe foi contando as novidades: quem teve o carro roubado (dois primos), quem teve a casa assaltada (um dos primos de quem tinham roubado o carro antes), os tiroteios perto da casa deles, o olheiro de traficante que invadiu a casa que era do meu avô, enfim, essas coisas que se tornaram banais no Rio de Janeiro, a ponto de minha mãe contar isso como parte de nossa conversa de boas vindas.

O Sol parecia estar com saudades, e mandou toda sua fúria para nosagradar”. Na primeira semana cozinhamos num calor de 40 graus. Neste momento em que escrevo está muito mais agradável, é possível ficar na rede da varanda com roupas leves e sentindo uma brisa gostosa. No calorão mais forte até a própria rede me esquenta, nãopara ficar.

Mas nada disso é grande problema, aos poucos vamos nos adaptando e aprendendo a levar com a barriga. Também aos poucos vamos lembrando que é preciso muito cuidado ao comprar produtos no mercado, para não levar para casa um papel higiênico transparente, e que a única proximidade de umsuco de cajuconcentrado com a tal fruta é o “sabor artificial idêntico ao de caju”.

Falando nisso, estamos aproveitando para comer muitas frutas, que são boas e baratas. Mas sinto falta de algumas coisas que comia na Finlândia. Sinto falta do suco de laranja que tomava religiosamente no café da manhã. Dos iogurtes, Valio ou Ingman, que não são tão doces e ralos como os daqui. Sinto falta, pasmem, do ruisleipä, ou de qualquer outro pão saudável que não seja apenas um bate-entope. Não adianta me dizerem que essas coisas existem aqui: se existem, eu não posso comprar, porque meu rendimento caiu vertiginosamente ao voltar para o Brasil e não posso mais me permitir certosluxos”.

O luxo de viver dignamente, por exemplo. De ser respeitado. De me sentir tratado como gente. De não precisar pagar para trabalhar. Claro, porque aqui eu preciso comprar até as folhas que uso no laboratório da faculdade. Tudo isso para receber uma maravilhosa ajuda de custo do governo, que nãonem para o começo. Férias, aposentadoria, décimo-terceiro? Isso não existe. Plano de saúde? se eu pagar. Se eu ficar doente? O problema é meu. E ainda esperam de mim que eu retribua trabalhando para o desenvolvimento de um país que não quer se desenvolver.

Eu não digo que tenha saudades da Finlândia, especificamente. Eu gosto de separar os meus sentimentos. Tenho saudade de poder ter isso tudo que está no parágrafo acima. Na Finlândia eu tinha, mas sei que também posso ter em outros lugares. A esperança de que eu possa vir a ter aqui neste país verde e amarelo está cada vez menor. Sinceramente, ela não existe mais.

Também não adianta vir o César Maia me dizer que apesar de tudo isso o Rio de Janeiro é lindo. Não me importa, porque eu descobri que nunca morei em Niterói nem nunca estudei nem trabalhei no Rio de Janeiro. Toda pessoa que visitou Niterói e gostou conhece os bairros de Icaraí, São Francisco e as áreas nobres da Região Oceânica. Eu não moro em nenhum desses. Quem gosta do Rio logo cita o Leblon, Ipanema, Copacabana, Barra da Tijuca, Urca, Recreio, Lagoa... Eu não trabalho e nem passo perto de nenhum desses locais. Eu moro em Santa Rosa e estudo/trabalho na Ilha do Fundão. Tirando a Baia de Guanabara, nãonada lindo em todo o caminho. Na verdade o caminho é horrível e perigoso. Não é à toa que a região onde fica a universidade é chamada carinhosamente de Faixa de Gaza carioca. Em todo esse tempo aqui ainda não tive como ir à praia, que ir a uma praia decente implica em ao menos trinta minutos de carro. Ou seja, não tenho nem mesmo a compensação das belezas naturais.

Desculpem o longo desabafo, mas eu precisava disso. Não consigo falar isso com ninguém aqui, pois temo que vão entender tudo errado, como se eu não estivesse feliz em revê-los. O que ninguém entende é que eu me sinto tão humilhado profissionalmente aqui que nem mesmo a satisfação de estar com as pessoas que gosto é suficiente para me fazer sentir bem. Percebo que com isso estou até me distanciando, evitando falar para não falar demais e reclamar de tudo. Evitando contato para que não percebam que estou triste. Porque é triste que estou.

Domingo, Outubro 16, 2005

Berlim – uma cidade que incomoda

À primeira vista ela parece somente mais uma grande metrópole com lojas e luzes para todos os lados, restaurantes com comidas típicas e, como não poderia deixar de ser por se tratar da Alemanha, muita cerveja. Mas bastou um passeio até a igreja mais próxima para sentir que Berlim é uma cidade marcada pela guerra, pela dor e por uma história que jamais será esquecida pelo resto do mundo.

Da tal igreja restou apenas uma torre (partida), algumas paredes e um lindo mosaico remendado. Do imenso muro restaram blocos de concreto, painéis em alemão mostrando tempos muito duros e uma sensação de dor inexplicável. Há também um jardim, próximo ao parlamento, com um monumento que lembra um imenso cemitério, com vários retângulos de granito fazendo o papel de tumbas de tamanhos distintos.

Não, Berlim não te deixa esquecer das milhares de vidas perdidas ali... naquelas ruas... naquelas campos, naquele chão. O “turismo de guerra” está em quase todos os museus; estampado em fotos, contado em áudio, sentido na pele arrepiada enquanto se caminha pela sala do museu Judaico, que simula a vida num campo de concentração.

Para uma pessoa sensível é difícil lidar com essa parte tão negra da história. Talvez por isso tenha sido inevitável tirar um dia inteiro para visitar o enorme zoológico da cidade. O Pergamon, imponente museu de arte antiga, também é uma ótima pedida para aliviar um pouco esse clima de sofrimento que Berlim deixa em nós. Um clima certamente muito pesado, mas extremamente necessário para que a triste história do Holocausto e da ditadura não se repita jamais. Nunca mais.

collage1-1.jpg

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Muro, Checkpoint Charlie (antigo ponto de controle entre Berlim oriental e ocidental), Museu Judaico, catedral de Berlim, igreja bombardeada, Portão de Brandenburgo, interior da cúpula do parlamento, urso panda no zoológico, altar do templo de Pergamon.

Texto publicado originalmente no site Idéias Mutantes.

Terça-feira, Outubro 11, 2005

A volta

Chegamos.

Final de agosto, final de contrato de aluguel. Com um mês sobrando para ficar na Finlândia, a solução foi morar um tempo com uns amigos. Que bom ter amigos com quem contar nessa hora, e nesse ponto não temos do que reclamar.

A confusão começou em Berlim, onde fui para uma viagem de trabalho com uma “Pata” a tiracolo. De fomos para uma esticadinha em Dresden visitar uma família linda que conhecíamos pela Internet: Marcele e sua trupe. Maravilhoso. Uma vez em Dresden, por que não fazer uma visitinha a Praga? Fantástico.

De volta à Finlândia, de volta ao trabalho de empacotar, compactar e levitar malas. Levitar sim, porque as “generosas” empresas aéreas permitem apenas 20kg por passageiro vindo da Europa para o Brasil. Então, o único jeito de trazer tudo o que queríamos era diminuindo milagrosamente o peso de nossas coisas. Como milagres não acontecem, precisamos doar várias sacolas imensas de roupas, deixar outras tantas com amigos para buscar ano que vem, e outras com um amigo que deve voltar ao Brasil no fim do ano.

No fim de semana, um pouco de férias para relaxar a cabeça e cansar as pernas. Não preciso explicar muito, basta uma palavra: Roma. Com direito a um pulinho em Florença para mudar a paisagem. Nãopara descrever essa viagem em um parágrafo, então não escrevo nenhum. Fica para outra oportunidade.

Voltando para a Finlândia, quarta-feira à noite, a tarefa de compactação e levitação milagrosa continua. Somado a isso, a necessidade de fazer backups e a seleção dos papéis que iriam para o lixo, os que iriam comigo e os que seriam enviados por correio. Na sexta-feira, encontro com o chefe para discutir os assuntos finais, ir para casa, pegar as malas e entrar no táxi para o aeroporto.

Como as tentativas de fazer milagres com as malas não funcionaram, uma amiga foi se encontrar conosco no aeroporto para um pequeno truque com a empresa aérea: deixamos as malas de mão pesadíssimas com ela e nos apresentamos no check-in apenas com pastas razoavelmente leves para carregar na mão. Depois buscamos tudo e fomos para o avião com uns 17kg de bagagem de mão, cada. Observação: o limite era de 8kg. E dá-lhe força de vontade para carregar tudo isso sem fazer cara feia para que não desconfiassem do pesoligeiramenteacima do permitido.

Chegando, fomos premiados com quase duas horas de espera para buscar as nossas malas. Enquanto isso, os fiscais da alfândega estavam à espreita, esperando os passageiros com mais cara de contrabandistas apertarem o famigerado botão que indica quem vai ser revistado e quem vai para o abraço. A vantagem da mala demorar é que o fiscal não quer mais ver ninguém na hora em que se está passando, e realmente é correr para o abraço. Abraço da família, dos amigos e da velha vida nova que está começando agora.

*Texto publicado originalmente em www.ideiasmutantes.com.br.

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Saudações verde-amarelas!!!

Olá pessoal, finalmente temos Internet em casa! Imaginem que a Velox nos deu um mês de prazo para alterar nossa linha telefônica e colocar a Internet? Até lá Cas e eu já teríamos morrido de crise de abstinência! Colocamos outra, claro.

A viagem foi super tranqüila, tirando a tremedeira de sempre dos aviões e o fato de que não durmo de modo algum nessas poltronas minúsculas. Não sou fresca pra dormir, só tenho o sono leve, então preciso de silêncio, escuro e um pouquinho de espaço para os meus parcos 1, 56m de altura.

Ainda estou sem tempo de postar fotos e comentários sobre a viagem à Alemanha e Itália, mas assim que as coisas estiverem ajeitadas aqui em casa farei isso. Vcs não imaginam o quanto de coisa temos para resolver; parece que a casa sentiu esses dois anos de ausência e está querendo chamar a atenção: é lâmpada que não acende, pia que quebra, chuveiro que não esquenta... uma maravilha!

Mas claro que estamos radiantes em voltar pra nossa casinha e rever cada coisinha que escolhemos para compor o cenário do nosso lar, ainda que o destino de algumas poucas delas seja a lata do lixo. Já se pegou revendo uma coisa sua e pensando "onde eu estava com a cabeça quando comprei isso?". Pois é, meu gosto mudou muito nesses dois anos...

Agora é hora de recomeçar a vida, e eu estou animada para isso. Pretendo ajeitar minha casa, dar um rumo à minha tese de doutorado, conseguir um emprego e curtir muuuuito a minha família e os meus amigos. Torçam por nós e, para quem está na Finlândia, continuem sempre mandando notícias e fotos sobre o que acontece por essas bandas daí nos blogs e flogs da vida. Pó deixar que sempre daremos uma passadinha pr'um café ;)

Beijos a todos!